terça-feira, 30 de junho de 2020

Fazer arte exige treino

Acredite-se ou não, ser alguém das artes já foi sinônimo de grandeza, sobretudo de espírito. Hoje a decadência no âmbito artístico é tão grande que tais profissionais são vistos com maus olhos por grande parte da sociedade. Ter um filho músico? De jeito nenhum, exceto se este estudar algo de verdade antes; uma filha artista plástica? “Só por cima de meu cadáver”, diriam alguns pais. No entanto, grande parte das pessoas que critica a profissão de músico, por exemplo, não vive sem uma musiquinha no dia a dia, seja no escritório, seja no carro, seja num restaurante. O que seria, portanto, da vida desse cidadão sem o profissional da música para livrá-lo de sua rotina exaustiva e muitas vezes sem sentido?

De jeito nenhum aqui se nega que muitos artistas dão mau exemplo em sua vida pessoal, muitas vezes regadas a bebedeira e confusão mental. Mas e aqueles que viveram a dar bons exemplos, e que são talvez a maioria? E nas outras áreas, não há malucos inconsequentes? Não existem advogados cretinos? Não existem administradores desatinados? Sim, existem!

Ninguém mais que os bons artistas rechaçam os maus artistas, seja no mau exemplo que dão, seja na arte ruim que praticam pela falta de dedicação e falta de tino. Infelizmente, as artes tomaram uma conotação de que todo mundo pode exercê-la facilmente. Sim, todos podem exercer a carreira de músico, por exemplo, mas não, não é fácil. Diferentemente de um advogado, que cursou quatro anos de Direito e saiu capacitado para trabalhar na área, quatro anos para um músico é nada. Nada! Exceto para um músico ruim. E infelizmente são esses que dão fama a essa profissão tão distinta; infelizmente são esses que pegam trabalhos em detrimento dos bons; são esses que hoje em dia estão na mídia, dando entrevistas e explanando suas baboseiras. E é por isso que hoje as artes não mais são um sinônimo de grandeza, infelizmente.

sábado, 9 de maio de 2020

Uma ideia na cabeça e...

Em tempos em que as notícias se espalham como praga de gafanhotos, nunca foi tão necessário a apuração e a depuração das tantas informações disponíveis. Analisar e conferir a procedência do que nos chega é como a leitura: um hábito que precisa ser criado e preservado. Associo este breve introito à leitura não por acaso, mas como uma orientação. A pessoa que lê, e aqui me refiro a coisas relevantes, possui mais know-how e segurança para decidir em quais notícias acreditar e quais notícias repassar; a pessoa que se prepara, ainda, terá mais discernimento em não criar produtos "fake" para atrasar ainda mais a vida de seu compatriota.

Com o rápido avanço da tecnologia digital e a expansão de smartphones, é comum vermos pessoas criando produtos audiovisuais diversos, às vezes até em demasia. O que pensaria Georges Méliès, que em sua época precisava pintar à mão cada frame (quadro) de suas filmagens para ter seus filmes coloridos, caso visse o destino que tomou o mercado audiovisual? Poderia ter uma boa avaliação, vendo a democratização da linguagem, como poderia ter um julgamento negativo, diante de tanto despreparo visto nas novas produções. A título de informação, à época de Méliès, cada segundo de filme tinha entre 16 e 20 frames. Hoje a taxa de frame rate (fps) é de 29.97 para vídeos digitais e de 24 para o cinema (23.976 precisamente).

Os smartphones não têm nada de "smart", apesar de algumas pessoas acharem que por ter uma câmera e um editor de vídeo disponíveis já seja suficiente. Não! Os equipamentos que utilizamos são burros, eles precisam de nosso comando. "Smart" precisamos ser nós, que temos a matéria-prima à nossa disposição. O que vamos fazer com ela é que determinará a qualidade do produto final. Não é porque um vídeo é caseiro que ele precisa ser ruim. As câmeras dos smarphones de hoje têm resoluções incomparavelmente maiores que as câmeras que Mèliés utilizava, e por que então as produções caseiras são incomparavelmente aquém das produções do mestre? É claro que ele em sua época tinha todo um arsenal por trás, mas ainda assim não acredito que se os tais novos produtores de vídeos de hoje tivessem a infraestrutura que tinha George Mèliés fariam coisas à mesma altura.

O que quero dizer, em síntese, é que, é claro que cuidados técnicos são determinantes - como mínima preocupação com o planejamento, com a iluminação, com o áudio, com a direção de arte e com tudo o que compõe o vídeo, portanto -, mas o mais importante é ter boas ideias, ter paciência, ter objetivo, ter criatividade, ter o que dizer de fato, e tudo isso só se consegue criando aquele know-how que tratei no início, isto é, lendo, assistindo boas produções, preparando-se ininterruptamente. Se uma câmera boa fosse acessório suficiente para boas produções, hoje teríamos dúzias de Méliès, Eisensteins, Griffiths, Bergmans etc.

Pense no que quis dizer Glauber Rocha quando falava que cinema se faz com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão. Trabalhe seu conhecimento, explore a cultura na qual está envolto, crie repertório, trabalhe sua criatividade, porque o restante você provavelmente já possui. Imagine o que faria George Mèliés com os equipamentos de gravação de hoje.

Com uma sociedade mais bem preparada, a gente certamente gastaria menos tempo com canalhas tentando a todo tempo nos enganar, e teríamos mais tempo para focar no que realmente nos é caro.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Confinamento e Liberdade

Começo este artigo com uma pequena provocação. Qual dor é maior, a sua, em seu confinamento aparentemente interminável, ou a de alguém que está numa fila de hospital? É claro que esta é uma pergunta propositalmente capciosa, mas se a resposta for que é a de quem está numa fila de hospital, devo dizer que ou se está mentindo na intenção de se mostrar solidário, ainda que a si mesmo, ou não se entendeu a pergunta. A empatia pelo sofrimento alheio é louvável, mas jamais será possível senti-lo de fato. A dor maior é, portanto, a sua, por menor e mais banal que ela possa parecer perante outras.

Da mesma forma funciona a liberdade. Numa discussão de âmbito mais abstrato, é possível estar-se preso, ainda que livre, digo nos parâmetros da convenção social. Como é possível, pois, ser livre com a mente nos perturbando incontrolavelmente? Como é possível ser livre não conseguindo controlar os próprios sentimentos e pensamentos? Por outro lado, é possível ser livre, creio eu, estando com o corpo com limitações de espaço, se a mente estiver amparada na esperança e no repouso.

Na atual pandemia, e não só nela, evidentemente surgem as mais variadas reações, mas talvez as piores sejam a de pessoas querendo lucrar com o sofrimento alheio. Políticos usando seu poder de oratória, pensando em cargos futuros, usando para isso o nome da ciência ou da religião; a imprensa exagerando na quantidade de informações derrotistas repetidas, visando audiência; pessoas jurídicas fazendo doações associadas às suas empresas etc.

Usar do terror para capitalizar é uma prática muito antiga. Maquiavel já nos ensinava sobre esse método há quinhentos anos. Até onde tudo é cênico? Quem estará com a verdade? Aqui não se deve também isentar os cúmplices de todo esse circo. Enquanto algumas pessoas não têm nem mesmo condições básicas de sobrevivência, outras compram porta-máscaras de R$ 600,00; enquanto algumas pessoas não conseguem superar a falta de dinheiro para compras mínimas, outras, por outro lado, esgotam prateleiras; enquanto alguns trabalhadores não conseguem os R$ 600,00 de ajuda do governo que lhes foi prometido (mesmo valor do porta-máscara), outras, que jamais trabalharam, também querem sua boquinha, ou, ainda, maus-elementos fraudam o sistema para tirar o pouco de quem realmente merece.

Há várias formas de contribuir com a sociedade, e não somente num momento pandêmico. Há pessoas que descobriram a solidariedade agora, e antes tarde do que nunca. Há várias formas de solidariedade. A primeira – e digo isso com pesar, já que não é bem solidariedade – é não atrasar a vida alheia, nem usar de táticas malévolas ou se aproveitar da vulnerabilidade das pessoas para capitalizar; a segunda – com o mesmo pesar da primeira – é não se sentir juiz nem porta-voz da justiça; a terceira pode ser bem variável. É possível doar coisas; é possível compartilhar material que contribua na saúde mental; é possível a introspecção em oração, por que não? É possível uma palavra amiga a alguém, ainda que a um familiar, ora, por que a ajuda só é válida quando feita em grande escala e vista por todos? Talvez o mais importante, no fim, seja que, independentemente de quaisquer ajudas, estas sejam feitas de forma genuína, sem uma câmera fotográfica na mão, sem a intenção de sanar o próprio ego, sem o objetivo de ficar bem consigo mesmo. E o mais importante é que a solidariedade seja perene. Ter empatia pela dor alheia é louvável, repito, mas ela não mitiga o sofrimento de ninguém.

Talvez esteja aí a liberdade para quaisquer confinamentos, esses feitos em pandemias, e aqueles que nos acompanham por toda uma vida: a autêntica solidariedade. Aí pode estar a chave para a verdade e também para a liberdade.

terça-feira, 31 de março de 2020

A culpa não é do acaso

Ninguém será capaz de me convencer que a pandemia que assolou, e assola, o planeta não tem um culpado. Tem, sim! Se não for uma pessoa, é um país: a China, que agora, e somente agora, proibiu o comércio de animais selvagens para corte.

Assim como fui refutado quando sugeri à época que o Carnaval de São Paulo devia ser suspenso, refutaram-me também quando sugeri que o tal comércio de animais selvagens da China era o culpado por todo mal que hoje dizima sociedades mundo afora.

Os argumentos que jogaram sobre mim em ambas as questões foram basicamente os seguintes: “Por que cancelariam o Carnaval se não há nada acontecendo no Brasil?” E “A China não tem culpa, essas coisas não se controlam”.

Alguém em sã consciência duvida da alta globalização atualmente? Se duvida, talvez não haja argumento; se não duvida, por outro lado, então o argumento de que na época ainda não se tinha contágio no Brasil torna-se injustificável.

Quando se deu o Carnaval por aqui, o vírus já estava destruindo a China e já havia chegado à Europa. Era óbvio que seria apenas uma questão de tempo até se chegasse aqui. Sem mencionar o fato de que muitos estrangeiros participam dos carnavais de São Paulo. Mas infelizmente é necessário ter um mal já avançado para que medidas sejam tomadas. No país da festa e da algazarra, certamente haveria muita gritaria, caso a festa tivesse sido cancelada, e nenhum governante iria querer ficar mal perante sua sociedade em ano eleitoral. Muito bem, todos aproveitaram a festa, com o preço de agora estarem trancafiados como animais enjaulados.

Voltando à questão da China. Desastres, não naturais, controla-se, sim! Como não? Não foi a primeira vez que países, através de sua imprudência, disseminaram vírus mortais mundo afora. E o que aprenderam? Nada. Quantos milhões são gastos em vacinas? Quanto esforço é exigido na área da pesquisa? Tudo isso, em grande parte das vezes, para tentar consertar o mal que alguns países, através de sua cultura muitas vezes retrógrada, exporta. A Árabia Saudita ainda hoje cria dromedários, mesmo após o desastre que o Mers provocou; a China até hoje mantinha a insanidade de seus mercados, mesmo após tantas epidemias lançadas, como a Sars, em 2002.

Muitos, sobretudo os mais religiosos, pensam que esse vírus veio para nos ensinar algo. Não! O vírus veio porque um país foi irresponsável. E por que deveríamos acreditar que o tal vírus ensinará algo, se os outros não ensinaram? Talvez o último que tenha ensinado alguma coisa foi o da Gripe Espanhola, mas era outra sociedade, menos mimada e menos carente. E tenho minhas dúvidas se foi mesmo ele que ensinou algo ou se foi a Primeira Guerra Mundial ou a Crise de 1929.

Hoje os pesquisadores conseguem criar uma vacina em um ou dois anos, isso é sem dúvida um avanço descomunal, mas de que adianta, tudo isso, se por um lado há profissionais decentes trabalhando no mais alto nível, enquanto de outro, há países lutando contra a humanidade e desequilibrando a gangorra para baixo?

As pessoas não vão ficar mais próximas ou mais amáveis por causa dessa pandemia; as pessoas não vão ficar mais solidárias, nem vão ficar mais reflexivas, ou menos individualistas. O novo milênio entrou numa dinâmica sem volta. O mundo, já nos ensinaram as epidemias das últimas décadas, vai continuar o mesmo: em queda livre. Que não venham pandemias piores no futuro! Por toda experiência pregressa, tudo indica que virão.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Vigilância e Sensatez

O governo brasileiro, mais especificamente o Ministério da Saúde, assim como os governos estaduais e municipais, tem tomado medidas importantes contra o tal vírus que assola o globo. Entretanto, fica claro que as medidas sobre as quais estou falando deveriam ter sido tomadas antes. “Ah, mas antes não tinha como saber”, ou “Ah, mas antes não era tão grave”. O fato é que o bom líder deve estar sempre à frente, fazer um prognóstico decente e a partir disso tomar as medidas necessárias. No fim, elas foram tomadas de todo jeito. Antes, porém, tivessem sido adiantadas, talvez hoje o assolamento fosse menor.

O Carnaval, por exemplo, poderia ter sido repensado, por mais difícil que tivesse sido à época. Não o foi, muito provavelmente por questões financeiras. Todavia, o custo que a disseminação da doença está produzindo é infinitamente maior que o lucro da festa. Nenhum prefeito tentaria cancelar um dos principais eventos do ano em ano de eleição, sem um motivo forte. Existe um fenômeno intransponível na política que são as condições objetivas, isto é, sem infectados, sem cancelamentos. Mas uma análise rápida pode ser interessante.

O primeiro caso do vírus no Brasil foi confirmado no dia 26 de fevereiro, quarta-feira de Cinzas, em São Paulo, e por mais que já tivesse passado o incompreensível pré-Carnaval, ainda teriam o Carnaval (fim de semana seguinte ao do dia 26) e o também incompreensível pós-Carnaval. Vale lembrar, ainda, que quando houve a confirmação do primeiro caso, no dia 26, já tinham mais de cinquenta casos suspeitos. Mesmo que o tal caso confirmado não tivesse sido de contágio comunitário, já que foi importado da Itália, o alerta estava dado. No próprio dia 26, a Anvisa pediu a relação da lista de passageiros do voo em que o senhor diagnosticado com o vírus viajou. Era só uma questão de tempo para a doença se propagar na cidade de São Paulo e consequentemente no Brasil.

Na Itália, os dois primeiros casos surgiram no dia 30 de janeiro de 2020, e no dia 24 fevereiro, menos de um mês, portanto, e dois dias antes da primeira confirmação aqui em São Paulo, o país já tinha 224 casos confirmados. Eis o que disse nosso ministro da Saúde à época:

“Não sabe se por aqui o vírus acelera ou desacelera. Os vírus se comportam de forma diferente no Hemisfério Norte e no Hemisfério Sul. Esse é um vírus que surgiu em baixa temperatura. Pode não ter o mesmo comportamento. Pode ser para melhor ou para pior. O Brasil é um país de pessoas mais jovens e está no verão. Esse é um período pouco propício para um vírus respiratório por aqui”.

É claro que naquela fase tudo poderia ser um mistério por aqui, e hoje é fácil analisar. De toda forma, brincaram com a sorte e pagaram para ver. Como eu disse antes, o bom líder está sempre à frente. Hoje já são mais de 10 mil contaminados no mundo e mais de 224 mil pessoas infectadas.

Não quero dizer que se o Carnaval tivesse sido cancelado, hoje não teríamos o vírus circulando, mas cada medida ajuda, sobretudo em eventos de gigantesca aglomeração, e quanto mais se consegue retardar o andamento do infortúnio, menos chance de colapsar a saúde pública e a economia. O Carnaval foi em fevereiro de 2020, o vírus mortal está rodando o mundo desde o fim de 2019. Será mesmo que alguém duvidava que ele chegasse aqui cedo ou tarde, dada a alta globalização? Esperar para tomar medidas e pagar para ver é complicado quando o assunto é vida. Sempre tivemos o hábito de deixar para estudar para as provas escolares no dia anterior ao de sua aplicação, e isso reflete essa cultura no poder do país.

O ponto que toco não é do Carnaval em si, já que esse exemplo é só para ilustrar o fato de que por aqui, e talvez no resto do mundo também, as pessoas e as autoridades demoram demais para se prevenir. Há duas semanas foi sugerido ao governador de São Paulo fechar as escolas, ele deu risada. Na semana seguinte fechou; há uma semana foi sugerido a alguns amigos que cancelassem um evento que eles estavam organizando, eles chamaram de paranoico aqueles que fizeram a orientação, alguns dias depois o evento foi cancelado.

Não podemos negar o fato de que também é muito difícil convencer o ser humano, e aqui falo especificamente de nós brasileiros, a salvar a própria pele, e nesse caso ainda há uma agravante: se pensarmos individualmente prejudicamos a todos, já que vivemos em rede.

Muitos ignoram a gravidade do problema, e quando a notam, a doença já tomou proporções astronômicas. Tem havido certa tendência, que vem diminuindo à medida que as notícias ficam mais sérias, de certas pessoas rotularem os que se preocupam com toda essa situação de paranoicos, e é claro que ser egoísta e esgotar estoque de suprimentos ou de produtos de limpeza é pânico injustificável, mas o paranoico pode ser aquele que acha que tudo está tranquilo. O cidadão que acha que o tal vírus não é tão grave, é o mesmo cidadão que renega vacina, a ciência, o heliocentrismo etc.

Nem todos podem parar de trabalhar, é evidente; nem todos, aqui no Brasil, podem ficar em quarentena, já quem nem todos têm onde morar, e por isso cabe ao governo usar todo o seu poder para assessorar essa parte da economia e da subsistência do país, e ainda que seja indispensável sair de casa, que o faça só para o indispensável de fato. Mas o que vemos são bares repletos de gente, praias tomadas e circulação e encontros sociais desnecessários. Pessoas dessa natureza ignoram todos os dados científicos e orientações de órgãos competentes, e talvez quando se derem conta seja demasiado tarde.

É claro que aqui não cabe culpa. De todo modo, a reflexão se faz necessária. Somos tratados como infantis sem motivo, ou o somos de fato? Levanto a questão pelo simples motivo de diariamente haver algum especialista em saúde nos ensinando como lavar as mãos, assim como as professoras do ensino infantil ensinam suas crianças a escovar os dentes ou a amarrar os sapatos. Se nós, marmanjos, não sabemos como lavar as mãos, como podemos ter discernimento para eleger um presidente? Se precisamos de gente nos dizendo como fazer o mínimo, nos mostra óbvio o porquê de sempre voltarmos a eleger ditadores em alguma etapa da vida. Ainda que tais características também se apliquem a outros países, isso é muito acentuado no latino-americano. Se não tem gente nos dando ordem, nós não agimos, e mesmo que nos deem ordem, nós não a respeitamos. Análise esta para as ciências de comportamento humano.

O fato é, portanto, que estamos diante de uma crise extremamente grave. Arrisco-me a dizer que não passávamos por isso desde a gripe espanhola, excluindo a Segunda Guerra Mundial. E espero, também, que a Ásia um dia responda por sua irresponsabilidade sanitária (ainda que a imprensa japonesa alegue que o vírus se originou nos EUA), assim como a África, que também já exportou muito mal com tais doenças, apesar de ambos os continentes também terem sido vítimas, mas o foram por sua própria insensatez sanitária.

O Brasil e outros países do Ocidente, por fim, não estão isentos, já que o desflorestamento e outras questões, como a expansão agrícola, podem acarretar a soltura de muitas doenças. Há a suspeita, inclusive, de que a malária esteja de mãos dadas com o desmatamento. Sensatez não é paranoia (termo chulo usado para ofender). A sensatez pode, sim, salvar o mundo.

Para encerrar, toda essa situação pode ter chegado ao mundo por algum motivo mais abstrato. Nenhuma pandemia na história deixou o mundo e o comportamento das pessoas iguais em seu antes e depois. Esperemos que a humanidade, e mais especificamente seus líderes, aprenda algo com tudo isso.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dois Papas – um filme conceitualmente desprimoroso e inverídico

Um dos filmes de maiores sucessos de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios peca por mudar a história, uma história que já é difícil por si só. Está aí uma ideia perigosa. Se for para usar fatos e nomes verídicos numa história, que ela seja verdadeira, senão não passa de um descarado engodo, uma forma de confundir a sociedade aos bel-prazeres dos donos da obra. Em outras palavras, não passa de simples desonestidade intelectual.

O filme Dois Papas, não chega a mudar tanto a verdadeira história como Bastardos Inglórios, mas é igualmente inverídico.

O papa Bento XVI sempre foi injustiçado por pessoas que nunca se preocuparam em entender a Igreja, e são essas as pessoas que se metem em promover obras artísticas, quase sempre falando bobagens. O filme em questão pinta Joseph Ratzinger – posteriormente Bento XVI – como um homem conservador, arrogante e luxuoso, aquele homem antirreformador que manteria a Igreja no “atraso”, e chamado no filme muitas vezes de nazista.

Ratzinger serviu o exército da Alemanha em sua juventude, e que escolha ele teria diante de Hitler? O futuro papa pediu baixa pouco tempo depois, exatamente por não compactuar com tudo aquilo. E devemos lembrar que Führer teve 88% dos votos dos alemães, em 1934.

A visão de que Bento XVI era conservador é uma visão ignorante dos fatos. Foi ele, quando jovem, que foi o mentor de uma das maiores reformas da Igreja, o Concílio Vaticano II, que abriu as portas da Igreja, abriu o diálogo com outras frentes, como os luteranos e os presbiterianos. Foi ele também o cérebro do papado de João Paulo II, a quem convenceu a aderir aos quatro de cinco preceitos do evolucionismo, que são: a) tronco comum – a que João Paulo II se opôs –, b) especiação, c) evolução, d) seleção natural e e) gradualismo.

É uma incógnita o porquê de terem colocado o rótulo de conservador no papa que renunciou. Talvez por ele ter sido, antes de bispo de Roma, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que em tempos remotos chamava-se Suprema e Sacra Congregação da Inquisição Universal. No início do século XX, no entanto, mudou-se o nome e o caráter, que passou a ser de apenas adequação nas mudanças de rituais locais. Talvez tenha ele o rótulo de conservador por ter proibido o frade Leonardo Boff de publicar seus textos e artigos antirreligiosos e que utilizava a Igreja unicamente para fazer política barata, diferentemente de frei Betto, que explica o marxismo na realidade cristã. Boff sempre foi um homem anti-hierárquico, e deixou isso claro muitas vezes. Ora, se não aceita a Igreja, não tem de estar nela. Assumiu ele, para provocar Bento XVI, que vivia com sua secretária havia quinze anos (quanto orgulho!).

Bento XVI veio de uma realidade alemã, com poucos percalços, e lá, como professor universitário, tinha papel maior de pensar o mundo, de ensinar, diferentemente de Jorge Bergoglio, que teve sua realidade numa Argentina cheia de problema e, consequentemente, uma proximidade maior com os pobres. Bento XVI tinha uma aparência mais fechada por natureza, era mais introspectivo, e qual é o problema dessas características? O fato é que a todo momento pegavam no pé do papa alemão, por tudo. Implicaram com ele até com a cor de seus sapatos vermelhos, quando celebrou no Brasil. O Vaticano à época teve de se pronunciar explicando a alusão ao sangue de Cristo.

Quando surgiram denúncias de pedofilia no papado de Bento XVI, ele, diferentemente do que o roteiro sugere, foi duro na investigação e aproximou o Vaticano das paróquias mundo afora. Posteriormente, o papa Francisco deu continuidade.

Bento XVI foi o primeiro papa que sugeriu que Jesus era fruto da evolução da espécie, fazendo crer que falava sobre Noé, Abraão e Moisés; foi ele o responsável por trazer mandatos de seis anos, renováveis por mais seis, aos padres diocesanos – quem sabe sua renúncia não veio daí? (Até hoje não é clara a razão.) –; foi ele, ainda, que aboliu o limbo, já que, segundo a Igreja da época, era para lá que as crianças iam quando morriam antes dos sete anos sem serem batizadas; foi Bento XVI quem influenciou João Paulo II a perdoar Galileu Galilei, eliminando barreiras, criando interação e trazendo grande abertura para a Igreja, que, diga-se de passagem, tem um departamento de ciência, do qual fazia parte inclusive o ateu Stephen Hawking; Bento XVI, por fim e entre tantas outras coisas, pôs-se a favor do uso de preservativos onde havia disseminação de AIDS.

O longa, baseado em livro, afirma que o motivo da renúncia de Bento XVI foi o pedido de renúncia (até hoje muito duvidoso) do então cardeal Bergoglio, claramente uma mentira; o filme acusa injustamente o mesmo cardeal de ter ficado do lado dos militares no início da ditadura na Argentina, ignorando completamente o papel de um sacerdote; o filme foca também em outro ponto muito duvidoso: uma feia briga entre o papa Bento XVI e Jorge Bergoglio.

O filme Dois Papas é conceitualmente desprimoroso e inverídico em muitos aspectos, feito por gente que possivelmente não entende nada sobre a Igreja e que só quer bagunçar e polemizar, prática, infelizmente, comum de muitos artistas. Se os produtores e o diretor quisessem fazer uma ficção, que tivessem ao menos a hombridade de utilizar nomes fictícios.

O longa-metragem tentou destruir a imagem do maior pensador vivo da Igreja, talvez o maior pensador vivo da humanidade. O filme rotulou de retrógrado um dos maiores reformadores da Igreja Católica.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Abdicação

Diante de uma realidade individualista e hedonista, características predominantes do ser humano na era pós-moderna, sacramentou-se a ideia do “ame-se acima de tudo!”. Essa foi a "fórmula mágica" encontrada para fugir de desilusões diversas. Atualmente, aconselhar o semelhante a sacrificar-se é uma espécie de crime.

Particularmente, não consigo imaginar o amor sem que haja um locutor e um interlocutor, isto é, não posso conceber a ideia do amor sem algo que forneça a possibilidade de reciprocidade. Amar a si próprio seria, portanto, além de uma impossibilidade clara, o absurdo do pedantismo e da soberba.

Relacionamentos têm sido cada vez mais frágeis, cada vez mais líquidos, cada vez mais vulneráveis, à medida que se aumenta a tese do “colocar-se a acima de qualquer coisa”. Para que qualquer espécie de relação tenha a menor chance de ocorrer satisfatoriamente, é necessário abstrair-se de presunção, é necessário sacrificar-se em prol do próximo, abdicar, muitas vezes, de seus desejos e de suas vontades. Isso não quer dizer que deva haver num relacionamento um servo e um senhor, mas a possibilidade de renúncia de todas as partes envolvidas. Também isso não quer dizer que num relacionamento sempre deverá valer a ideia do outro em detrimento da sua. É preciso tomar cuidado com os extremos.

Colocar-se sempre em primeiro lugar não significa ser mais feliz nem se livrar do famigerado “fazer papel de bobo”, mas, pelo contrário, colocar-se sempre em primeiro lugar apenas o tornará mais infeliz e com poucas chances de fazer qualquer relação funcionar perene e decentemente, tendo, à vista disso, um efeito contraproducente.

Quando Jesus alerta para o fato de “amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22, 39), está indicando Ele empatia e compreensão, e não a arrogância que tomou o ser humano a partir dessa premissa. São Paulo nos indaga: “O que é que possuis que não tenhas recebido?”

“Ame-se!”, “coloque-se em primeiro lugar!” e “pense em você!” são conselhos perigosos, já que sempre quando vêm estão fechados em si. Livrar-se das algemas de relacionamentos possessivos e dependentes foram grandes conquistas para muita gente, mas é preciso sempre lembrar que um relacionamento não funciona quando cada um apenas pensa em seu próprio bem-estar, em seu próprio sucesso, e pensar dessa maneira apenas porque se vislumbra uma possível ruptura é trazer à vida ansiedade e sofrimento para si e para o próximo.

Mas como diria Antônio Abujamra, “a vida é sua, estrague-a como quiser”.